Contra-ataque na Chatuba
Aparato de guerra pra capturar os monstros
atualizado em 12/09/2012 00:18
O banho de sangue promovido por traficantes de Mesquita, deixando oito mortos e um desaparecido no fim de semana, teve como resposta uma grande mobilização das forças de segurança pública e da população.
Enquanto 250 policiais ocupavam ontem, pela primeira vez, a Favela da Chatuba, com aparato de guerra, mais de 100 pessoas repassaram ao Disque-Denúncia (2253-1177), em menos de 24 horas, informações para ajudar na captura dos monstros responsáveis pela chacina de seis jovens no Parque de Gericinó e pelas execuções de um cadete da PM e de um pastor.
Nas primeiras horas da madrugada, dois helicópteros e quatro tanques blindados da Marinha, seguidos por comboio do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e do Batalhão de Choque, partiram rumo à Chatuba, que será a primeira localidade da Baixada a ganhar uma Companhia Destacada - a medida pode ser o início do processo de pacificação da região. "Vão com Deus! Tem que invadir mesmo", gritou um morador, em apoio, ao ver a chegada dos policiais.
Ao longo do dia, 20 pessoas foram presas, acusadas de envolvimento com o tráfico. Entre elas, duas mulheres e um adolescente que teve a perna amputada, segundo a polícia, após ser baleado em confronto anterior. Os policiais apreenderam grande quantidade de drogas, munição, um fuzil alemão com luneta, metralhadora, um carro e quatro motos roubados, além de R$ 17 mil.
Dor da despedida
Os corpos de Patrick Machado, de 16 anos; Glauber Siqueira, 17; Christian Vieira, 19; Josias Searles, 16; Douglas Ribeiro, 17; e Victor Hugo Costa, 17, os seis amigos de infância assassinados por traficantes da Chatuba, foram velados ontem na quadra do Ginásio Municipal de Nilópolis, no bairro Cabral - local onde os jovens costumavam jogar bola. As vítimas eram identificadas por papéis colados nos caixões, já que três delas tiveram os rostos desfigurados pelos tiros.
Do ginásio, às 13h30, os corpos seguiram em cortejo pela cidade até o cemitério de Olinda, onde foram enterrados às 14h. "Quero meu filho!", gritou a mãe de Glauber, antes de desmaiar. Outra parente do jovem também passou mal e precisou de atendimento médico.
Na camisa, pedido de paz
Pai de Christian, o pedreiro Cildes Vieira do Espírito Santo, de 42 anos, chorou ao lembrar do dia em que foi procurar o filho. Ontem, ele vestia camisa com a foto do rapaz e as frases ‘Meu filho amado' e ‘A Baixada Fluminense pede paz'. "Fui ao local (Parque de Gericinó), perguntei se meu filho estava lá e disseram que não. Mas ele estava e eu sentia isso. Depois o mataram e o jogaram na estrada igual a um bicho. Falta segurança mas não tenho medo. Isso não vai ficar impune", desabafou Cildes.
Vizinhos dos rapazes no Cabral estavam chocados. "O Parque de Gericinó é refúgio de traficante", o vizinho de uma das vítimas. "Eles (traficantes) não fizeram isso só com os pais dos meninos, fizeram com a comunidade. Nossa rua acabou".
Cabral admite migração de traficantes pós-UPPs
O governador Sérgio Cabral afirmou ontem que o massacre ocorrido na Chatuba é uma tentativa do tráfico de afrontar o Estado, e que não haverá alterações na política de segurança. Pela primeira vez desde o início do processo de implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), Cabral admitiu que criminosos foragidos de favelas cariocas já retomadas pelo Estado migraram para outras comunidades, onde tentam se reorganizar.
"A Chatuba, assim como as demais comunidades dominadas pela marginalidade armada do estado, tem traficantes que fugiram do Rio após a pacificação. Isso é bem claro, não temos ilusão. Ações de violência como essa são uma reação ao enfraquecimento, à diminuição de seu poder", afirmou Cabral.





